quinta-feira, 19 de abril de 2012

Ah, um Soneto...

 

    Meu coração é um almirante louco
    que abandonou a profissão do mar
    e que a vai relembrando pouco a pouco
    em casa a passear, a passear ...

    No movimento (eu mesmo me desloco
    nesta cadeira, só de o imaginar)
    o mar abandonado fica em foco
    nos músculos cansados de parar.

    Há saudades nas pernas e nos braços.
    Há saudades no cérebro por fora.
    Há grandes raivas feitas de cansaços.

    Mas — esta é boa! — era do coração
    que eu falava...  e onde diabo estou eu agora
    com almirante em vez de sensação? ...

Álvaro de Campos

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