segunda-feira, 22 de agosto de 2011

PARTIDA

 

Já a vista, pouco e pouco, se desterra

Daqueles pátrios montes, que ficavam;

Ficava o caro Tejo e a fresca serra

De Sintra, e nela os olhos se alongavam.

Ficava-nos também na amada terra

O coração, que as mágoas lá deixavam.

E já depois que toda se escondeu,

Não vimos mais, enfim, que mar e céu.

 

 

Luís de Camões, OS LUSÍADAS, V, 3

OS LUSÍADAS

segunda-feira, 15 de agosto de 2011

A Noite é muito Escura

alberto_caeiro

É noite. A noite é muito escura. Numa casa a uma grande distância
Brilha a luz duma janela.
Vejo-a, e sinto-me humano dos pés à cabeça.
É curioso que toda a vida do indivíduo que ali mora, e que não sei quem é,
Atrai-me só por essa luz vista de longe.
Sem dúvida que a vida dele é real e ele tem cara, gestos, família e profissão.


Mas agora só me importa a luz da janela dele.
Apesar de a luz estar ali por ele a ter acendido,
A luz é a realidade imediata para mim.
Eu nunca passo para além da realidade imediata.
Para além da realidade imediata não há nada.
Se eu, de onde estou, só veio aquela luz,
Em relação à distância onde estou há só aquela luz.
O homem e a família dele são reais do lado de lá da janela.
Eu estou do lado de cá, a uma grande distância.
A luz apagou-se.
Que me importa que o homem continue a existir?


Alberto Caeiro, in Poemas Inconjuntos

quinta-feira, 28 de julho de 2011

UM OLHAR PARA O MUNDO

Um olhar para o mundo



Perdi o meu olhar

No meio do silêncio

Respiro outro ar

E não percebo o que sinto.


Lembro-me daquele momento,

Quando tinha...

O que será?

Será que era medo?

Talvez. Ninguém sabe.


Conheci pessoas novas

Umas boas, outras duras

Como a noite e o dia

Alguém falava, alguém sorria.


Abracei tantas ruas

Guardei muitas palavras,

Deixei de ser marcada

E já não me sinto o nada.


Mas vejo ainda os meus iguais,

A forma como usam as palavras

Tentando esconder

O que têm medo de perder

O desejo de pertencer,

O desejo de abraçar,

O desejo de amar.


Acções imprevisíveis

Que dominam aquele ser

Acções que são incríveis

Não gastando o seu poder.


Feliz, por estar aqui,

Feliz, por ter-te a ti,

Feliz, por saber o que é falar

De coisas sem pensar.


As casas, as flores,

As músicas e os sabores

Tudo me ajudou sentir

Ultrapassar e agir.


Esta árvore tem frutos

E folhas tão diferentes,

Há muitas ainda e muitos

Que nem sabem quem são eles.


A vida é um jogo

E nós, os jogadores nela

Não existe ainda aquele fogo

Capaz de apagar uma geração como aquela.


Senti a amizade

A entrar no coração

E lendo uma curiosidade

Descobri no final quem são.


Uma parte do meu “Eu”

Gosta de olhar para o céu,

Outra parte está contente

Por não ouvir “ele vai esquecer-te”!


Zinaida Mogildea, 11º A

Português Língua não Materna

quarta-feira, 27 de julho de 2011

MÁRIO DE SÁ-CARNEIRO



Dispersão


Perdi-me dentro de mim
Porque eu era labirinto,
E hoje, quando me sinto,
É com saudades de mim.

Passei pela minha vida
Um astro doido a sonhar.
Na ânsia de ultrapassar,
Nem dei pela minha vida...

Para mim é sempre ontem,
Não tenho amanhã nem hoje:
O tempo que aos outros foge
Cai sobre mim feito ontem. (...)

Mário de Sá-Carneiro

segunda-feira, 4 de julho de 2011

REVISTAS DE BORDO

 

TAP

Nas revistas de bordo sucede quase sempre o mesmo: passamos os olhos pela página, em busca de uma simples distracção, de modo a que nos desviemos do confronto com a janela, afastados da heresia que é contemplar o céu a partir dos céus. Por outro lado, a revista de bordo é uma hospedeira em página impressa, um porteiro de nações, um massagista de almas atingidas por desfasamento de fusos horários. Estas eram as balizas, os estranhos limites às palavras voadoras.

Mia Couto, Pensageiro Frequente

Editorial Caminho

terça-feira, 28 de junho de 2011

poema

«O poema é uma abstracção, uma escrita que espera, uma lei que só numa boca humana vive.»

Paul Valéry

sábado, 18 de junho de 2011

OS ARTISTAS E A TAPEÇARIA DE PORTALEGRE

 

TMP

A  Manufactura de Tapeçarias de Portalegre e a Sociedade Nacional de Belas Artes prestam homenagem a quatro pintores da mesma geração, incontornáveis no panorama artístico português, apresentando tapeçarias de Cruzeiro Seixas, Fernando Lanhas, Júlio Resende e Nadir Afonso. Esta exposição, ao integrar linguagens artísticas desde o surrealismo, à expressão puramente geométrica,  passando pelo abstraccionismo e figurativo, comprova a capacidade de interpretação da Tapeçaria de Portalegre.

SOCIEDADE NACIONAL DE BELAS ARTES (SNBA)

Rua Barata Salgueiro, 36 Lisboa (14h- 20h)

De 22 de Junho a 30 de Julho

quinta-feira, 16 de junho de 2011

SANTO ANTÓNIO

Saíra Santo António do convento

A dar o seu passeio acostumado

E a decorar num tom rezado e lento

Um cândido sermão sobre o pecado.

E andando...andando sempre

Repetia o seu divino sermão suave e brando

E nem notou que a tarde esmorecia

E vinha a noite plácida baixando

Andando... andando, viu-se num outeiro

Com árvores e casas espalhadas

Que ficava distante do mosteiro

Uma légua, das fartas, das puxadas.

Surpreendido por se ver tão longe

E cansado por haver andado tanto

Sentou-se a descansar o bom do monge

Com a resignação de quem é um santo.

O luar, um luar claríssimo nasceu

Num raio dessa linda claridade

O Menino Jesus baixou do céu

E pôs-se a brincar com o capuz do frade.

Perto, uma bica de água murmurante

Juntava os seus murmúrios ao dos pinhais

Os rouxinóis ouviam-se distantes

O luar, mais alto, iluminava mais

De braço dado para a fonte vinha

Um par de noivos todo satisfeito

Ela trazia no ombro a cantarinha

E ele trazia o coração no peito.

Sem suspeitar que alguém os visse

Trocaram beijos ao luar tranquilo

O Menino porém ouviu e disse:

- Oh, frei António, o que foi aquilo?

O frei erguendo a manga do burel

Para tapar o noivo e a namorada

Mentiu numa voz doce como o mel

- Não sei que fosse, eu cá não ouvi nada.

Uma risada límpida, sonora, cristalina

Ecoou como notas de ouro sobre o caminho.

- Ouviste frei António, ouviste agora?

- Ouvi Senhor, ouvi, é um passarinho.

- Tu não estás com a cabeça boa.

Um passarinho? E a cantar assim?.

E o pobre Santo António de Lisboa, calou-se

embaraçado.

Mas por fim, corado como as vestes dos cardeais

Teve esta saída redentora

- Se o Menino Jesus pergunta mais

Queixo-me a sua Mãe, Nossa Senhora.

E voltando-lhe a carinha contra o vento

E contra aquele amor, sem casamento

Pegou-lhe ao colo e disse:

Jesus, são horas!

E abalaram para o convento

Augusto Gil