sábado, 14 de janeiro de 2012

Ao Entardecer

     Ao entardecer, debruçado pela janela,
     E sabendo de soslaio que há campos em frente,
     Leio até me arderem os olhos
     O livro de Cesário Verde.

     Que pena que tenho dele!  Ele era um camponês
     Que andava preso em liberdade pela cidade.
     Mas o modo como olhava para as casas,
     E o modo como reparava nas ruas,
     E a maneira como dava pelas cousas,
     É o de quem olha para árvores,
     E de quem desce os olhos pela estrada por onde vai andando
     E anda a reparar nas flores que há pelos campos ...

     Por isso ele tinha aquela grande tristeza
     Que ele nunca disse bem que tinha,
     Mas andava na cidade como quem anda no campo
     E triste como esmagar flores em livros
     E pôr plantas em jarros...

Alberto Caeiro

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Brasil

Pátria de emigração.
É num poema que te posso ter...
A terra - possessiva inspiração;
E os rios - como versos a correr.

Achada na longínqua meninice,
Perdida na perdida juventude,
Guardei-te como podia:
na doce quietude
Da força represada da poesia.

E assim consigo ver-te
Como te sinto:
Na doirada moldura de lembrança,
O retrato da pura imensidade
A que dei a possível semelhança
Com palavras e rimas de saudade.

Miguel Torga

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

DERIVA

Vi as águas os cabos vi as ilhas
E o longo baloiçar dos coqueirais
Vi lagunas azuis como safiras
Rápidas aves furtivos animais
Vi prodígios espantos maravilhas
Vi homens nus bailando nos areais
E ouvi o fundo som das suas falas
Que já nenhum de nós entendeu mais
Vi ferros e vi setas e vi lanças
Oiro também à flor das ondas finas
E o diverso fulgor de outros metais
Vi pérolas e conchas e corais
Desertos fontes trémulas campinas
Vi o frescor das coisas naturais
Só do Preste João não vi sinais

As ordens que levava não cumpri
E assim contando tudo quanto vi
Não sei se tudo errei ou descobri


Sophia de Mello Breyner Andresen

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

FELIZ NATAL

 

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Natal

 

esperamos todos

o dealbar de um rosto

a aparição de outra coisa

entre o chão de limos e o rumor dos freixos

 

esperamos

às portas fechadas do mar

a onda favorável que nos leve ao outro lado

o sopro redentor

o expansivo meio em que a alegria nasce

(…)

 

José Augusto Mourão, O Nome e a Forma

terça-feira, 13 de dezembro de 2011

Portalegre ao anoitecer

 

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António Aleixo

 

Para não fazeres ofensas

e teres dias felizes,

não digas tudo o que pensas,

mas pensa tudo o que dizes.

 

Mentiu com habilidade,

fez quantas mentiras quis;

agora fala verdade

ninguém crê no que ele diz.

 

Não sou esperto nem bruto,

nem bem nem mal educado:

sou simplesmente o produto

do meio em que fui criado.

 

Vemos gente bem vestida,

no aspecto desassombrada;

são tudo ilusões da vida,

tudo é miséria dourada.

 

Sei que pareço um ladrão...

mas há muitos que eu conheço

que, não parecendo o que são,

são aquilo que eu pareço.

 

 

António Aleixo

quarta-feira, 7 de dezembro de 2011

LUZ

A Luz que Vem das Pedras

A luz que vem das pedras, do íntimo da pedra,
tu a colhes, mulher, a distribuis
tão generosa e à janela do mundo.
O sal do mar percorre a tua língua;
não são de mais em ti as coisas mais.
Melhor que tudo, o voo dos insectos,
o ritmo nocturno do girar dos bichos,
a chave do momento em que começa o canto
da ave ou da cigarra
— a mão que tal comanda no mesmo gesto fere
a corda do que em ti faz acordar
os olhos densos de cada dia um só.
Quem está salvando nesta respiração
boca a boca real com o universo?


Pedro Tamen, in Agora, Estar

domingo, 4 de dezembro de 2011

Fado, Património Imaterial

 

Fado Português

O Fado nasceu um dia,
quando o vento mal bulia
e o céu o mar prolongava,
na amurada dum veleiro,
no peito dum marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


Ai, que lindeza tamanha,
meu chão , meu monte, meu vale,
de folhas, flores, frutas de oiro,
vê se vês terras de Espanha,
areias de Portugal,
olhar ceguinho de choro.


Na boca dum marinheiro
do frágil barco veleiro,
morrendo a canção magoada,
diz o pungir dos desejos
do lábio a queimar de beijos
que beija o ar, e mais nada,
que beija o ar, e mais nada.

Mãe, adeus. Adeus, Maria.
Guarda bem no teu sentido
que aqui te faço uma jura:
que ou te levo à sacristia,
ou foi Deus que foi servido
dar-me no mar sepultura.


Ora eis que embora outro dia,
quando o vento nem bulia
e o céu o mar prolongava,
à proa de outro veleiro
velava outro marinheiro
que, estando triste, cantava,
que, estando triste, cantava.


José Régio, Poemas de Deus e do Diabo

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Ignoto Deo

 

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(D. D. D.)

Creio em ti, Deus; a fé viva

De minha alma a ti se eleva.

És: - o que és não sei. Deriva

Meu ser do teu: luz... e treva,

Em que - indistintas! - se envolve

Este espírito agitado,

De ti vêm, a ti devolve.

O Nada, a que foi roubado

Pelo sopro criador

Tudo o mais, o há-de tragar.

Só vive do eterno ardor

O que está sempre a aspirar

Ao infinito donde veio.

Beleza és tu, luz és tu,

Verdade és tu só. Não creio

Senão em ti; o olho nu

Do homem não vê na terra

Mais que a dúvida, a incerteza,

A forma que engana e erra.

Essência! a real beleza,

O puro amor - o prazer

Que não fatiga e não gasta...

Só por ti os pode ver

O que, inspirado, se afasta,

Ignoto Deo, das ronceiras,

Vulgares turbas: despidos

Das coisas vãs e grosseiras

Sua alma, razão, sentidos,

A ti se dão, em ti vida,

E por ti vida têm. Eu, consagrado

A teu altar, me prostro e a combatida

Existência aqui ponho, aqui votado

Fica este livro - confissão sincera

Da alma que a ti voou e em ti só spera.

 

Almeida Garrett, Folhas Caídas.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

o dia do outro lado

 

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Livro comemorativo dos 30 anos da CERCI PORTALEGRE

Autoria de Carlos Garcia de Castro e Raul Ladeira

Edições Colibri, 2011

 

 

«Ora aqui estamos nesta casa nobre,

onde reside a nossa condição,

sermos criança ainda em corpo vindo

do tempo convocado para crescermos

na inocência dum destino humano».

Carlos Garcia de Castro

sexta-feira, 25 de novembro de 2011

PRAIA

 

Na luz oscilam os múltiplos navios
Caminho ao longo dos oceanos frios

As ondas desenrolam os seus braços
E brancas tombam de bruços

A praia é lis e longa sob o vento
Saturada de espaços e maresia

E para trás fica o murmúrio
Das ondas enroladas como búzios.



Sophia de Mello Breyner