segunda-feira, 28 de maio de 2012

Sassetti

Sassett2i

O Homem Que Disse Adeus

Mas não se Despediu

A vida tem destas coisas, quanto menos se espera a tragédia acontece. Dizem que, por vezes, pomo-nos a jeito, o que em certa medida, também é verdade.

Bernardo Sassetti fazia 42 anos no próximo dia 24 de Junho, estava na força da idade e da sua capacidade artística. Pianista famoso há bastantes anos, vinha nos últimos tempos a dedicar-se à fotografia e dava os últimos retoques no seu primeiro filme. A sua música dizia-se, era fortemente cinemática – tinha quinze bandas sonoras no currículo – daí esta interação que vinha desenvolvendo ultimamente entre a música e a imagem. Ao compor via imagens, quando fotografava ouvia música. Mas o seu campo de intervenção artístico era ilimitado; fosse bailado ou ópera, cinema, teatro ou música ligeira ou mesmo qualquer outro tipo de performance, Bernardo dizia sim eempenhava-se, sendo condição suficiente o projeto apresentar algo inovador e fora dos cânones tradicionais.

O jazz, sua primeira paixão - apesar de ter começado na música clássica - ia ficando para trás, mau grado os concertos que ia dando, com Carlos Barretto e Alexandre Frazão, aqui e ali. Sassetti era um músico completo e cada vez mais se ia assumindo como artista global.

Portalegre e as suas gentes eram paixão mais ou menos recente, tocava aqui com regularidade – foi ele que abriu o 1º Portalegre JazzFest, no último ano tocou aqui três vezes e chegou a dizer-me que em Portalegre se sentia em casa – e ultimamente tinha também por cá algumas extensões do seu trabalho. O concerto “ A Memória Luminosa”, gratuito ao que sei, apresentado no dia da Fundação Robinson foi desenvolvido como parte de um projeto multimédia sobre grandes espaços industriais desativados. Esse concerto feito a partir de uma peça original inspirada na velha Fábrica Robinson, foi dedicado aos portalegrenses em geral e aos trabalhadores da Robinson em particular e demonstrou esta nova paixão do artista.

Em embrião e quase no segredo dos deuses estava um novo projeto do músico, desenvolvido a partir de uma ideia de Jorge Serra e que consistia numa abordagem ao lado mais sombrio da obra de José Régio em interação com os alunos da Escola de Artes do Norte Alentejano, contando com declamação de Adolfo Luxuria Canibal dos Mão Morta. O palco também já estava pensado e seria na Igreja do Convento de São Francisco.

Bernardo Sassetti era visceralmente uma pessoa boa e simples que tentava perceber as vicissitudes de um mundo acelerado e em mutação constante. Em recente entrevista ao Diário Económico declarava sem peias, que não se importava que copiassem ou pirateassem a sua música, só pedindo que a ouvissem e aqui talvez caiba uma pequena inconfidência; o concerto do Trio de Bernardo Sassetti no último Portalegre Jazzfest foi gravado por alguém por meios pouco lícitos, não para comercializar mas para uma coleção particular, tempos depois numa conversa com o músico o facto veio à baila de forma fortuita e eis quando se esperava uma reação legitimamente agastada, Sassetti pediu humildemente uma cópia para a sua coleção, que foi imediatamente providenciada e recebida com penhorados agradecimentos… Tinha também em preparação um site que antecipava de espetacular, onde iria oferecer às pessoas músicas inéditas que foram sendo gravadas e que ele teria todo o gosto em partilhar. Casado com Beatriz Batarda, atriz fetiche de Oliveira, pai de duas filhas, era homem de família e a música estava sempre presente.Sofria pelo Benfica, tinha uma padaria e estava a desenvolver contactos com produtores estrangeiros para fazer música para cinema, apesar da vida fora país – viveu em Barcelona e Londres - estar fora de questão. Considerava que a incompetência e a especulação estavam a dar cabo do mundo. Então desde que os media, televisão à cabeça, se tornaram numa indústria de conteúdos e não em veículos de informação, tem sido um drama

Diz quem o conhecia que dava tudo por uma boa imagem, o que o terá levado à morte na última quinta-feira, ao cair de uma falésia, no Guincho, onde estava a fotografar.

Num ano em que as artes e a cultura portuguesa têm sido tão mal tratadas, faltava-nos perder, em pouco mais de uma semana, duas figuras maiores, Fernando Lopes e Bernardo Sassetti.

São tempos duros e difíceis os que vamos vivendo…

Luís Filipe Meira

Texto publicado no jornal Alto Alentejo

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