segunda-feira, 29 de outubro de 2012

Eugénio de Andrade

Urgentemente

É urgente o amor
É urgente um barco no mar


É urgente destruir certas palavras,
ódio, solidão e crueldade,
alguns lamentos, muitas espadas.


É urgente inventar alegria,
multiplicar os beijos, as searas,
é urgente descobrir rosas e rios
e manhãs claras.


Cai o silêncio nos ombros e a luz
impura, até doer.
É urgente o amor, é urgente
permanecer.


Eugénio de Andrade, in Até Amanhã

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

Sabemos muito pouco de Camões


Sabemos muito pouco de Camões,
Mal sabemos quem foram os seus pais,
Quanto ao seu nascimento há discussões,
Dos seus estudos não se sabe mais.
Passou dezassete anos aos baldões
Na Índia e em paragens orientais.
Fazia belos versos muitas vezes.
N’Os Lusíadas canta os Portugueses.

 

Quando voltou a Portugal, saiu
O seu livro. Camões era tão pobre
Que não se sabe como o conseguiu.
Talvez tivesse a ajuda de algum nobre
E ajuda com certeza ele pediu.
Enfim, o livro sai e se descobre
Que aquele altivo português de gema
Pusera a nossa História num poema.
 

Esse poema chama-se epopeia
Que era uma forma usada antigamente
Em que um herói levando a vida cheia
De combates terríveis segue em frente
E acaba vencedor, porque guerreia
Em nome do seu povo e é tão valente
Que em coragem e força é sobre-humano.
O povo aqui é o peito lusitano.
 

Para o fazer, Camões usou a oitava
Que é feita de oito versos a rimar.
Até ao sexto as rimas alternava,
Nos dois finais a rima vai a par.
Com oitavas assim, organizava
Essa história que tinha de contar
Em cantos que são dez e a nós, ao lê-los,
Espanta como pôde ele escrevê-los.

 

A Dom Sebastião, que assim se chama
O jovem rei de Portugal, oferece
O seu poema e lhe promete a fama
Que a nossa terra junto ao mar merece.
Diz como navegou Vasco da Gama
Mas conta a nossa História, não se esquece

Do que antes sucedeu, nem dos perigos
Que o mar nos fez correr, mais que aos antigos.

 

Vasco Graça Moura in Os Lusíadas para gente nova, pp. 11-12 [fonte: Gradiva]

 

sexta-feira, 19 de outubro de 2012

Manuel António Pina (1943-2012)

Manuel António Pina

 

A um Jovem Poeta

Procura a rosa.
Onde ela estiver
estás tu fora
de ti. Procura-a em prosa, pode ser


que em prosa ela floresça
ainda, sob tanta
metáfora; pode ser, e que quando
nela te vires te reconheças


como diante de uma infância
inicial não embaciada
de nenhuma palavra
e nenhuma lembrança.


Talvez possas então
escrever sem porquê,
evidência de novo da Razão
e passagem para o que não se vê.


Manuel António Pina, in Nenhuma Palavra e Nenhuma Lembrança

terça-feira, 16 de outubro de 2012

Escrever

Escrever é……

Escrever é mais do que fazer rabiscos numa folha de papel, escrever é mais do que escrever um monte de palavras, escrever é a libertação de sentimentos.

Escrever é conseguir passar para uma folha de papel as nossas emoções, para escrever é preciso aprender.

Para escrever não basta saber manusear um lápis ou uma caneta, é preciso saber manusear a nossa imaginação, é preciso saber agarrar as palavras.

Escreve é viajar entre as palavras e conseguir chegar ao seu destinatário.

Escrever é a arte e o incerto, é um mistério «inconcreto», é o futuro em aberto.

Escrever é falar com quem não vemos, ouvir quem nada nos diz, conversar com quem nos despreza, aprender com quem nada ensina, ensinar a quem não quer aprender.

Rita Serrano, 11ºG

sexta-feira, 12 de outubro de 2012

Escrever

Escrever. Porque escrevo? Escrevo para criar um espaço habitável da minha necessidade, do que me oprime, do que é difícil e excessivo. Escrevo porque o encantamento e a maravilha são verdade e a sua dedução é mais forte do que eu. Escrevo porque o erro, a degradação e a injustiça não devem ter razão. Escrevo para tornar possível a realidade, os lugares, tempos, pessoas que esperam que a minha escrita os desperte do seu modo confuso de serem. E para evocar e fixar o percurso que realizei, as terras, gentes e tudo o que vivi e que só na escrita eu posso reconhecer por nela recuperarem a sua essencialidade, a sua verdade emotiva, que é a primeira e a última que nos liga ao Mundo. Escrevo para tornar visível o mistério das coisas. Escrevo para ser. Escrevo sem razão.

Vergílio Ferreira, Pensar

quinta-feira, 11 de outubro de 2012

MAR



De todos os cantos do mundo
Amo com um amor mais forte e mais profundo
Aquela praia extasiada e nua,
Onde me uni ao mar, ao vento e à lua.


Sophia de Mello Breyner Andresen