quarta-feira, 30 de junho de 2010

O’NEILL


O'Neill


REDACÇÃO


Uma senhora pediu-me

um poema de amor.


Não de amor por ela,

mas «de amor, de amor».


À parte aquelas

trivialidades

«minha rosa, lua

do meu céu interior»

que podia eu dizer

para ela, a não destinatária,

que não fosse por ela?


Sem objecto, o poema

é uma redacção

dos 100 Modelos

de Cartas de Amor.


Alexandre O’Neill, Poesias Completas.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

UM POEMA DE MÁRIO CESARINY

mario_cesariny

MarioCesariny02

Um quadro de Mário Cesariny


LEMBRA-TE


Lembra-te

que todos os momentos

que nos coroaram

todas as estradas

radiosas que abrimos

irão achando sem fim

seu ansioso lugar

seu botão de florir

o horizonte

e que dessa procura

extenuante e precisa

não teremos sinal

senão o de saber

que irá por onde fomos

um para o outro

vividos


Mário Cesariny, Pena Capital

sábado, 26 de junho de 2010

O ANO DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

Saramago0001

Capa do P2, Público, 26 de Junho de 2010.

NO DIA DA MORTE DE JOSÉ SARAMAGO

«A passarola era a verdadeira ameaça contra a Inquisição! Nem as visões de Blimunda tinham aquela força de religião paralela que a passarola transportava. Frémito de razão e de futuro, não havia lenha que a queimasse, ela irrompia nas malhas do Memorial e fazia a mensagem prodigiosamente completa. Grito obstinado que em cada página, surdo, grita, se o homem construía a máquina, porque não haveria ele de ditar os fundamentos de uma nova moralidade alternativa, a razão era a mesma, o poder da razão era o mesmo, porque é que a justiça dos homens não devia ser construída em vez de ditada! A passarola era o sinal de completude de literatura (…).»

Maria da Assunção Esteves, Público, 26/06/2010

sexta-feira, 25 de junho de 2010

UM POEMA






OS GIRASSÓIS

Assim fremente e nua,
a luz só pode ser dos girassóis.
Estou tão orgulhoso
por esta flor difícil ter entrado pela casa.
É talvez o último verão,
tão feito de abandono é meu desejo.
Mas estou orgulhoso dos girassóis.
Como se fora seu irmão.

Eugénio de Andrade, A Religião do Girassol.

quarta-feira, 23 de junho de 2010

UM POEMA DE FERNANDO TAVARES RODRIGUES

 

F T Rodrigues

 

PERFUME

Amor é também

a tua essência,

esse perfume

que os nossos corpos une

na tua ausência…

Fernando Tavares Rodrigues, O Amor (Im)possível.

domingo, 20 de junho de 2010

PASSEIO DE BARCO NO TEJO, VILA VELHA DE RÓDÃO

    O Tejo é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia,
    Mas o Tejo não é mais belo que o rio que corre pela minha aldeia
    Porque o Tejo não é o rio que corre pela minha aldeia.

    O Tejo tem grandes navios
    E navega nele ainda,
    Para aqueles que vêem em tudo o que lá não está,
    A memória das naus.
    O Tejo desce de Espanha
    E o Tejo entra no mar em Portugal.
    Toda a gente sabe isso.
    Mas poucos sabem qual é o rio da minha aldeia
    E para onde ele vai
    E donde ele vem.
    E por isso porque pertence a menos gente,
    É mais livre e maior o rio da minha aldeia.

    Pelo Tejo vai-se para o Mundo.
    Para além do Tejo há a América
    E a fortuna daqueles que a encontram.
    Ninguém nunca pensou no que há para além
    Do rio da minha aldeia.

    O rio da minha aldeia não faz pensar em nada.
    Quem está ao pé dele está só ao pé dele.

    Alberto Caeiro

DSC04821

DSC04828 

DSC04837

DSC04845

DSC04857

DSC04867

DSC04866

DSC04880

DSC04914

DSC04910

DSC04911

DSC04897

domingo, 13 de junho de 2010

CESÁRIO VERDE

O SENTIMENTO DUM OCIDENTAL


I

AVÉ-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer
.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba-me;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros de aluguer, ao fundo,
Levando à via-férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista, exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, Sampetersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga, os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos,
Embrenho-me a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado
Luta Camões no Sul, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinido de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vêm sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera os focos de infecção!

(...)


Cesário Verde, O Livro de Cesário Verde.

quinta-feira, 10 de junho de 2010

UM POEMA DE MIGUEL DE UNAMUNO

ENTROPIA

Avec le temps, le temps même se change.

Ronsard


E se o próprio tempo
um instante parasse
preso no abismo
da eternidade?

Se Deus adormecesse
e seu dedo horário
na esfera escrevesse
a última verdade?

Se contra o costume
voltasse a torrente
ao gelo, lá no cume
de onde saiu?

Infinito rolo
do tear divino,
fechado botão,
árvore, fruto e flor!


Miguel de Unamuno (1869-1936)
Antologia Poética

terça-feira, 8 de junho de 2010

ROSTOS

«ROSTOS»

Exposição de Trabalhos de Carlos Gargaté

Serviços Centrais do IPP

Até 8 de Julho


DSC01463

DSC01479

DSC01468

DSC01469

DSC01475

DSC01509

DSC01473

DSC01472

DSC01474

segunda-feira, 7 de junho de 2010

LEONOR FIGUEIREDO VENCE OLIMPÍADAS DA FÍSICA



A aluna do 11ºD, Leonor Figueiredo, venceu as Olimpíadas da Física, etapa nacional.

Parabéns, Leonor!

http://www.tvciencia.pt/tvcnot/pagnot/tvcnot03.asp?codpub=23&codnot=15



A VIAGEM

Quando se alcança

o ponto em que não há regresso,

o que se avizinha

é tão insondável

como o que se deixou

- um túnel

no coração da máquina,

um segredo que se descobre

banal, ou não se descobre,

entre a resignação e o remorso.



José Alberto Oliveira, Mais Tarde.

quarta-feira, 2 de junho de 2010