sexta-feira, 30 de abril de 2010

CORTOMETRAJES - LA NIÑA DEL COLUMPIO


La Niña Del Columpio - Amazing videos are here
Ser artista

Ser artista é transportar na alma sentir
Querer
Crer amar
Criar
Acordar mundo
Desabrochar infinito
Noutro contemplar.

Ser artista é ter de si alma
Criar sentidos
Prever desmentidos
Ouvir
Denunciar
Esquecer
Crer em mundos iguais
Banais
De sentir
Desejos carnais.

Ser artista é ser para lá do eterno
É ser mais ser
Onde o ser já não é
Onde o ser se conquista
Para lá da paixão
Ser mais que amor
Ser mais que pensar
Ser de mundo dor.

Ser artista é ter de si noticia
Em mundo de si silenciado
Por tentativa precoce
De se anunciar
De se sentir criado

Ser artista é ser de poeta pincel
É ter na alma criação
Dominar de pensar técnica
Construir
Usufruir
Criação estética.

Ser artista é ser de si isolado
Demonstrar pensar próprio
Contradição
Emancipação
Ostentação
Perdido de sentido
De si criação.

Ser artista é navegar
Passar o cabo na tormenta
Sentir saudade
Olhar solidão
Converter felicidade
Pensar divindade
Buscando novidade.

Ser artista?
É ser.
Um estar,
Um crer ,
Um amar,
Um sentir,
Um olhar,
Partir!
Novo mundo criar.

Luís Martins

OFICINA DE POESIA NA BIBLIOTECA MUNICIPAL

quinta-feira, 29 de abril de 2010

ÚLTIMO NÚMERO DO DISTRITO DE PORTALEGRE

Distrito

Há 126 anos, nascia na cidade de Portalegre um jornal.

Durante 126 anos, semanalmente, informou e formou gerações.

Eis o rosto do último número.

O Fim.

ACTUAÇÃO DA HALLITUNA (28/04/2010)

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EXPOSIÇÃO

Exposição na Galeria de S. Sebastião


“ARTES da S. LOURENÇO”
De 7 a 14 de Maio de 2010

Os alunos de 10º ano (Artes), da Escola Secundária de S. Lourenço de Portalegre, expõem os seus trabalhos artísticos à Comunidade, na Galeria de S. Sebastião, no edifício da Câmara Municipal.
Esta iniciativa deve-se ao empenho dos alunos das turmas I e H, em colaboração com os seus professores de Desenho, Português, História da Arte e Filosofia.
Têm sido muito importantes as exposições patentes, ao longo deste ano escolar, tanto na Galeria do Museu de Tapeçarias Guy Fino, como na Galeria de S. Sebastião e que por eles têm sido vistas e analisadas. O primeiro passo foi estudar e ver obras de alguns artistas, como Cruzeiro Seixas, Artur Bual, Paula Rego, Miró, Martins Correia e Bert Holvast e Mário Cessariny, …e depois ensaiar algumas técnicas.
O resultado foi surpreendente.


De 7 a 14 de Maio de 2010, visite a exposição de Artes da S. Lourenço, na Galeria S. Sebastião em Portalegre.

HALLITUNA, ACTUAÇÃO NO JARDIM DO TARRO


Hallituna Actuação No Tarro 28/04/2010 - For more amazing video clips, click here



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terça-feira, 27 de abril de 2010

CORTOMETRAJES - EL MUNDO DE LAS DROGAS


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TEATRO EM INGLÊS NO IPJ (OUTROS MOMENTOS)











À SEMELHANÇA DE CAMÕES, EM BUSCA DE UMA DEFINIÇÃO DE AMOR (10ºA)

Foto de João José Bica




Amor é ser feliz e bem chorar
É não ter caminho mas ser estrada
É onde há tudo mas de repente nada
É ir embora e não querer mais voltar.


Ser amado é ter sorte e ter azar
É ter a alma livre e aprisionada
A sonhar voar mas a ser travada
É poder ser simples mas complicar.


Então porquê amar e porquê o amor?
Porquê escolher chorar e não rir?
Porquê a incerteza, tristeza e dor?


Porque o amor é mais do que sentir,
É não ter sonhos mas ser sonhador,
Ter quem nos agarre antes de cair.


Francisco Duque, nº 13
Joana Duque, nº 14
João Crastes, nº 15
José Antunes, nº 16
10º A

sábado, 24 de abril de 2010

ALENTEJO

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Em Portugal, há duas coisas grandes, pela força e pelo tamanho: Trás-os-Montes e o Alentejo. Trás-os-Montes é o ímpeto, a convulsão; o Alentejo, o fôlego, a extensão do alento. Províncias irmãs pela semelhança de certos traços humanos e telúricos, a transtagana, se não é mais bela, tem uma serenidade mais criadora.

Miguel Torga, Portugal.


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ALENTEJO


A pequena povoação as pedras

Da calçada

Os muros brancos – a ponta do telhado

Se revira como a mão da bailarina

Chinesa -

A loja de barros: tigelas e cestos empilhados

Cheira a palha e a barro

Aroma de hortelã cheiro a vinho entornado

Junto ao sol excessivo a penumbra fina.


Sophia de Mello Breyner Andresen, O Búzio de Cós


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sexta-feira, 23 de abril de 2010

DIA INTERNACIONAL DO LIVRO E DOS DIREITOS DE AUTOR

23 de Abril, Dia Mundial do Livro

A data começou a ser celebrada a 7 de outubro de 1926, em comemoração ao nascimento de Miguel de Cervantes.

O escritor e editor valenciano, estabelecido em Barcelona, Vicent Clavel Andrés, propôs este dia na Câmara Oficial do Livro de Barcelona.

Em 6 de Fevereiro de 1926, o governo espanhol, presidido por Miguel Primo de Rivera, aceitou a data e o rei Alfonso XIII assinou o decreto real que instituiu a Festa do Livro Espanhol.

No ano de 1930, a data comemorativa foi mudada para 23 de Abril, dia do falecimento de Cervantes.

Mais tarde, em 1996, a UNESCO instituiu 23 de Abril como o Dia Mundial do Livro e dos Direito de Autor, em virtude de a 23 de Abril se assinalar o falecimento de outros escritores, como Josep Pla, escritor catalão, e William Shakespeare, dramaturgo inglês. (...)

Zita Ferreira Braga

http://hardmusica.pt/noticia_detalhe.php?cd_noticia=5077



CORTOMETRAJES GRIPE A 11ºG

Cortometraje 11ºG Gripe A - The funniest bloopers are right here

quinta-feira, 22 de abril de 2010

LAÇOS E NÓS NA REDE (RBE) – ENCONTRO EM NISA

Um encontro para partilhar experiências que divulguem o livro.

Várias vozes que tentam seduzir leitores.

Nós e laços numa vila de artesãos e mestres.

Nós e laços em busca de uma tessitura discursiva e sedutora que permita aproximar o texto de possíveis leitores.

Laços e nós.

Nós e laços.

Todos.

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terça-feira, 20 de abril de 2010

A S. LOURENÇO EM SEVILHA


Secundária São Lourenço na Ilha Mágica

Na passada quinta-feira, dia 15 de Abril, os alunos de Espanhol das turmas B,C,D,E e G do 10º ano, juntamente com as professoras de Espanhol Mafalda Nunes, Paula Guerra e Carla Fontes, docente de Biologia da Escola Secundária São Loureço em Portalegre, visitaram o parque temático Isla Mágica.
A visita de estudo a Sevilha proporcionou aos alunos que nela participaram o alargamento de horizontes culturais e linguísticos e a oportunidade de pôr em prática o saber adquirido nas aulas de Espanhol em situações reais de comunicação.
O parque em questão está ambientado na exploração do Nuevo Mundo que domina a cidade de Sevilha do século XVI, uma vez que esta era o ponto de partida das viagens para a América.
Os alunos desfrutaram de um dia inesquecível e puderam recorrer e explorar cada uma das zonas que fazem deste parque, um paraíso de diversão e História. Entre as principais diversões encontram-se: Puerto de Indias; Quetzal, La Furia de los Dioses; El Balcón de Andalucía; Puerta de América; Amazonia; La Guarida de los Piratas; La Fuente de la Juventud y El Dorado.
Por último, referir que os alunos vivenciaram com esta visita de estudo - integrada na disciplina de Espanhol - experiências irrepetíveis em atracções consideradas como sendo das melhores da Europa. Em simultâneo articularam saberes como a Física, a História, a Matemática ou a Biologia.
Como afirmou o escritor Camilo José Cela, prémio Nobel da Literatura em 1989:"Quando viajo, o que mais me importa são as pessoas, porque só falando com elas se conhece o ambiente."


Mafalda Nunes e Paula Guerra

segunda-feira, 19 de abril de 2010

O Vulcão da Islândia

UM POEMA

CANÇÃO HUMILDE

Brisa de abril
Toda perfume,
Etéreo Nume
Contigo vai!

Pedrinha humilde
No chão perdida,
Do sol ferida
És uma estrela.

Negra ramagem,
O céu tocando,
Vai-se pintando
De azul celeste.

Gota de orvalho
Tremeluzindo,
Tens o sol rindo,
Dentro de ti!

Humildes cousas
Que ninguém olha:
Raminho ou folha
Ou grão de areia,

Tendes o encanto
Mais que divino
Que Deus menino
Achou na terra...


Teixeira de Pascoaes (1877- 1952)
Bela. À Minha Alma. Sempre. Terra Prometida.

domingo, 18 de abril de 2010

TEATRO EM INGLÊS NO IPJ DE PORTALEGRE

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Realizou-se, no dia 15 de Abril de 2010, no IPJ, uma sessão de teatro em Língua Inglesa, representada pela companhia: Avalon Theatre.

A Companhia de Teatro Avalon foi a primeira companhia profissional a representar em Inglês para o público escolar. A sua missão tem sido educar, esclarecer e divertir o público nos seus espectáculos.

A peça apresentada foi uma comédia baseada na obra de Shakespeare: A Midsummer Night’s Dream.

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Este dia deixou nos alunos as memórias de um teatro dinâmico e divertido, e a esperança de que a companhia volte novamente, no próximo ano.

Resumo da peça comédia da autoria de William Shakespeare, escrita em meados da década de 1590:

O Duque Teseu prepara-se para casar com a rebelde Hipólita. Antes do casamento, Teseu é chamado para resolver uma disputa amorosa envolvendo a romântica Hermia e seu pai Egeu. Hermia ama Lisandro, mas Egeu quer forçá-la a casar com Demétrio. Como Teseu concorda com Egeu, Hermia e Lisandro decidem fugir para a floresta. Enquanto isso, Demetrius é perseguido incessantemente pela apaixonada Helena.

Os quatro irão encontra-se numa floresta povoada por ninfas, fadas e outros seres encantados. O Rei das Fadas, Oberon está em pé de guerra com a belíssima rainha Titânia. Frustrado e desgostoso, Oberon arma com Puck um plano ardiloso envolvendo uma poção mágica, que fará com que qualquer pessoa se apaixone pelo primeiro ser vivo que encontrar pela frente.

Enquanto isso, um grupo de actores amadores ensaia uma peça para o casamento do duque.

Oberon transforma Bottom num homem com orelhas de burro e ordena a Puck que use a poção em Titânia para a ridicularizar. A belíssima rainha apaixona-se pelo asno. As confusões armadas por Puck levam os casais na floresta a caírem de amores pelos pares errados. Quebrado o encanto da poção, Bottom vira gente novamente, Oberon e Titânia fazem as pazes, e os casais vivem felizes.


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sexta-feira, 16 de abril de 2010

ROTEIRO QUEIROSIANO (SINTRA), ALGUNS MOMENTOS

 

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UM TEMPLO

 

Um templo construí – muro e fachada -

Sem a ideia de espaço projectada,

Com o requinte de um barco engalanado;

As paredes são feitas de meus medos,

Os torreões de choro e pensar fundo -

E esse estranho templo desfraldado

Qual bandeira de morte, qual chicote

Que fere e está na alma enrolado,

É muito mais real que todo o mundo.

 

Alexander Search (Fernando Pessoa)

ABRIL, ÁGUAS MIL


Alentejo

terça-feira, 13 de abril de 2010

ROTEIRO QUEIROSIANO – SINTRA – 12/04/2010, 11ºB, I

LEITURA DO CAPÍTULO VIII DE OS MAIAS DE EÇA DE QUEIRÓS, EM SINTRA


"O quê! o maestro não conhecia Sintra?... Então era necessário ficarem lá, fazer as peregrinações clássicas, subir à Pena, ir beber água à Fonte dos Amores, barquejar na várzea... (…)


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Carlos, no entanto, pensava no motivo que o trazia a Sintra. E realmente não sabia bem porque vinha: mas havia duas semanas que ele não avistava certa figura que tinha um passo de deusa pisando a terra, e que não encontrava o negro profundo de dois olhos que se tinham fixado nos seus: agora supunha que ela estava em Sintra, corria a Sintra. Não esperava nada, não desejava nada. Não sabia se a veria, talvez ela tivesse já partido. Mas vinha: e era já delicioso o pensar nela assim por aquela estrada fora, penetrar, com essa doçura no coração, sob as belas árvores de Sintra... (…)


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- A Lawrence onde é? Na serra? - perguntou ele com a ideia repentina de ficar ali um mês naquele paraíso.

- Nós não vamos para a Lawrence, disse Carlos saindo bruscamente do seu silêncio, e espertando os cavalos. Vamos para o Nunes, estamos lá muito melhor! (…)

E apenas o break parou à porta do Nunes, foi-lhe ainda dar um olhar, túmido e de longe - receando alguma palavra rude da sentinela.

Carlos no entanto, saltando logo da almofada, tomou à parte o criado do hotel, que descera a recolher as maletas.

- Você conhece o Sr. Dâmaso Salcede? Sabe se ele está em Sintra?

O criado conhecia muito bem o Sr. Dâmaso Salcede. Ainda na véspera pela manhã o vira entrar defronte, no bilhar, com um sujeito de barbas pretas... Devia estar na Lawrence, porque só com raparigas e em pândega é que o Sr. Dâmaso vinha para o Nunes.

- Então, depressa, dois quartos! exclamou Carlos, com uma alegria de criança, certo agora que ela estava em Sintra. E uma sala particular, só para nós, para almoçarmos!

(…)

O cocheiro levou o break, o criado sobraçou as maletas. Cruges, entusiasmado com Sintra, rompeu pela escada acima, a assobiar - conservando aos ombros o xaile-manta, de que se não queria separar, porque lho emprestara a mamã. E apenas chegou à porta da sala de jantar, estacou, ergueu os braços, teve um grito.

- Oh Eusebiozinho!

Carlos correu, olhou... Era ele, o viúvo, acabando de almoçar, com duas raparigas espanholas. (…)



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Eram duas horas quando os dois amigos saíram enfim do hotel, a fazer esse passeio a Seteais - que desde Lisboa tentava tanto o maestro. Na praça, por defronte das lojas vazias e silenciosas, cães vadios dormiam ao sol: através das grades da cadeia os presos pediam esmola. Crianças, enxovalhadas e em farrapos, garotavam pelos cantos; e as melhores casas tinham ainda as janelas fechadas, continuando o seu sono de Inverno, entre as árvores já verdes. De vez em quando aparecia um bocado da serra, com a sua muralha de ameias correndo sobre as penedias, ou via-se o Castelo da Pena, solitário, lá no alto. E por toda a parte o luminoso ar de Abril punha a doçura do seu veludo. (…)

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Defronte do hotel da Lawrence, Carlos retardou o passo, mostrou-o ao Cruges.

- Tem o ar mais simpático, disse o maestro. Mas valeu muito a pena ir para o Nunes, só para ver aquela cena... E então com quê o Sr. Carlos da Maia tem experiência de espanholas?

Carlos não respondeu, os seus olhos não se despegavam daquela fachada banal, onde só uma janela estava aberta com um par de botinas de duraque secando ao ar. À porta, dois rapazes ingleses, ambos de knicker-bokers, cachimbavam em silêncio; e defronte, sentados sobre um banco de pedra, dois burriqueiros ao lado dos burros, não lhes tiravam o olho de cima, sorrindo-lhes, cocando-os como uma presa.

Carlos ia seguir, mas pareceu-lhe ouvir, distante e melancólico, saindo do silêncio do hotel, um vago som de flauta; e parou ainda, remexendo as suas recordações, quase certo de Dâmaso lhe ter dito que a bordo Castro Gomes tocava flauta...

- Isto é sublime! exclamou do lado o Cruges, comovido.

Parara diante da grade de onde se domina o vale. E dali olhava, enlevadamente, a rica vastidão de arvoredo cerrado, a que só se vêem os cimos redondos, vestindo um declive da serra como o musgo veste um muro, e tendo àquela distância, no brilho da luz, a suavidade macia de um grande musgo escuro. E nesta espessura verde-negra havia uma frontaria de casa que o interessava, branquejando, afogada entre a folhagem, com um ar de nobre repouso, debaixo de sombras seculares... Um momento teve uma ideia de artista: desejou habitá-la com uma mulher, um piano e um cão da Terra-nova.

Mas o que o encantava era o ar. Abria os braços, respirava a tragos deliciosos:

- Que ar! Isto dá saúde, menino! Isto faz reviver!... (…)

Cruges (…) exclamou:

- Diabo! É necessário que não me esqueçam as queijadas!

Um som de rodas interrompeu-os, uma caleche descoberta desembocou a trote do lado de Seteais. Carlos ergueu-se logo, certo de que era ela, e que ele ia ver os seus belos olhos brilhar e fugir como duas estrelas. A caleche passou, levando um ancião de barbas de patriarca, e uma velha inglesa com o regaço cheio de flores e o véu azul flutuando ao ar. E logo atrás, quase no pó que as rodas tinham erguido, apareceu, caminhando pensativamente, de mãos atrás das costas, um homem alto, todo de preto, com um grande chapéu Panamá sobre os olhos. Foi Cruges que reconheceu os longos bigodes românticos, que gritou:

- Olha o Alencar! Oh! grande Alencar!... (…)


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- E onde estás tu, Alencar? perguntou logo Carlos.

- Pois onde queres tu que eu esteja, filho? Lá estou com a minha velha Lawrence. Coitada! está bem velha! mas para mim é sempre uma amiga, é quase uma irmã!... E vocês, que diabo? Para onde vão vocês com essas flores nas lapelas?

- A Seteais... Vou mostrar Seteais ao maestro.

Então também ele voltava a Seteais! Não tinha nada que fazer senão sorver bom ar, e cismar... Toda a manhã andara ali, vagamente, pendurando sonhos dos ramos das árvores. Mas agora já os não largava; era mesmo um dever ir ele próprio fazer ao maestro as honras de Seteais...

- Que aquilo é sítio muito meu, filhos! Não há ali árvore que me não conheça... Eu não vos quero começar já a impingir versos; mas enfim, vocês lembram-se de uma coisa que eu fiz a Seteais, e de que por aí se gostou...

Quantos luares eu lá vi!

Que doces manhãs de Abril!

E os ais que soltei ali

Não foram sete, mas mil!


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Pois então já vocês vêem, rapazes, que tenho razão para conhecer Seteais...

O poeta lançou ao ar um vago suspiro, e durante um instante caminharam todos três calados.

- Diz-me uma coisa, Alencar, perguntou Carlos baixo, parando, e tocando no braço do poeta. O Dâmaso está na Lawrence?

Não, que ele o tivesse visto. Verdade seja que na véspera, apenas chegara, fora-se deitar, fatigado; e nessa manhã almoçara só com dois rapazes ingleses. O único animal que avistara fora um lindo cãozinho de luxo, ladrando no corredor...

- E vocês onde estão?

- No Nunes.

(…)

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Mas, ao chegar a Seteais, Cruges teve uma desilusão diante daquele vasto terreiro coberto de erva, com o palacete ao fundo, enxovalhado, de vidraças partidas, e erguendo pomposamente sobre o arco, em pleno céu, o seu grande escudo de armas. Ficara-lhe a ideia, de pequeno, que Seteais era um montão pitoresco de rochedos, dominando a profundidade de um vale; e a isto misturava-se vagamente uma recordação de luar e de guitarras... Mas aquilo que ele ali via era um desapontamento.

- A vida é feita de desapontamentos, disse Carlos. Anda para diante! (…)

Iam ambos caminhando por uma das alamedas laterais, verde e fresca, de uma paz religiosa, como um claustro feito de folhagem. O terreiro estava deserto; a erva que o cobria, crescia ao abandono, toda estrelada de botões de ouro brilhando ao sol, e de malmequerzinhos brancos. Nenhuma folha se movia: através da ramaria ligeira o sol atirava molhos de raios de ouro. O azul parecia recuado a uma distância infinita, repassado de silêncio luminoso; e só se ouvia, às vezes, monótona e dormente, a voz de um cuco nos castanheiros.

Toda aquela vivenda, com a sua grade enferrujada sobre a estrada, os seus florões de pedra roídos da chuva, o pesado brasão rococó, as janelas cheias de teias de aranha, as telhas todas quebradas, parecia estar-se deixando morrer voluntariamente naquela verde solidão, - amuada com a vida, desde que dali tinham desaparecido as ultimas graças do tricorne e do espadim, e os derradeiros vestidos de anquinhas tinham roçado essas relvas... Agora Cruges ia descrevendo ao Alencar a figura do Eusebiozinho, com a chávena de café na mão, a ir pedir perdão à Concha; e a cada momento o poeta, com o seu grande chapéu panamá, se agachava a colher florinhas silvestres.

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Quando passaram o Arco, encontraram Carlos sentado num dos bancos de pedra, fumando pensativamente a sua cigarrete. O palacete deitava sobre aquele bocado de terraço a sombra dos seus muros tristes; do vale subia uma frescura e um grande ar; e algures, em baixo, sentia-se o prantear de um repuxo. Então o poeta, sentando-se ao lado do seu amigo, falou com nojo do Eusebiozinho. - Aí está uma torpeza que ele nunca cometera, trazer meretrizes a Sintra! Nem a Sintra, nem a parte nenhuma... Mas muito menos a Sintra! Sempre tivera, todo o mundo devia ter, a religião daquelas árvores e o amor daquelas sombras... (…)

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Cruges, no entanto, encostado ao parapeito, olhava a grande planície de lavoura que se estendia em baixo, rica e bem trabalhada, repartida em quadrados verde-claros e verde-escuros, que lhe faziam lembrar um pano feito de remendos assim que ele tinha na mesa do seu quarto. Tiras brancas de estradas serpeavam pelo meio: aqui e além, numa massa de arvoredo, branquejava um casal: e a cada passo, naquele solo onde as águas abundam, uma fila de pequenos olmos revelava algum fresco ribeiro, correndo e reluzindo entre as ervas. O mar ficava ao fundo, numa linha unida, esbatida na tenuidade difusa da bruma azulada: e por cima arredondava-se um grande azul lustroso como um belo esmalte, tendo apenas, lá no alto, um farrapozinho de névoa, que ficara ali esquecido, e que dormia enovelado e suspenso na luz... (…)


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Esteve um momento embebendo o olhar nas pedras brancas batidas do sol, atirou para lá um gesto triste, e murmurou:

- Foi ali.

E afastou-se, alquebrado sob o seu grande chapéu panamá, com o lenço branco na mão. Cruges, que aqueles romantismos impressionavam, ficou a olhar para os penedos como para um sítio histórico. Carlos sorria. E quando ambos deixaram esse recanto do terraço - o poeta, agachado junto do arco, estava apertando o atilho da ceroula.

Endireitou-se logo, já toda a emoção o deixara, mostrava os maus dentes num sorriso amigo, e exclamou, apontando para o arco:

- Agora, Cruges, filho, repara tu naquela tela sublime.

O maestro embasbacou. No vão do arco, como dentro de uma pesada moldura de pedra, brilhava, à luz rica da tarde, um quadro maravilhoso, de uma composição quase fantástica, como a ilustração de uma bela lenda de cavalaria e de amor. Era no primeiro plano o terreiro, deserto e verdejando, todo salpicado de botões amarelos; ao fundo, o renque cerrado de antigas árvores, com hera nos troncos, fazendo ao longo da grade uma muralha de folhagem reluzente; e emergindo abruptamente dessa copada linha de bosque assoalhado, subia no pleno resplendor do dia, destacando vigorosamente num relevo nítido sobre o fundo de céu azul claro, o cume airoso da serra, toda cor de violeta escura, coroada pelo Castelo da Pena, romântico e solitário no alto, com o seu parque sombrio aos pés, a torre esbelta perdida no ar, e as cúpulas brilhando ao sol como se fossem feitas de ouro... (…)


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Mas agora Cruges, impressionado, estava com desejo de subir à Pena. Alencar, por si, ia também com prazer. A Pena para ele era outro ninho de recordações. Ninho? Devia antes dizer cemitério... Carlos hesitava, parado junto da grade. Estaria ela na Pena? E olhava a estrada, olhava as árvores, como se pudesse adivinhar pelas pegadas no pó, ou pelo mover das folhas, que direcção tinham tomado os passos que ele seguia... Por fim teve uma ideia.

- Vamos indo primeiro à Lawrence. E depois se quisermos ir à Pena, arranjam-se lá os burros...

(…)

Defronte da Lawrence, os dois burriqueiros, de cigarro na boca, não tendo podido apoderar-se dos ingleses, preguiçavam ao sol.

- Vocês sabem, perguntou-lhes Carlos, se uma família, que está aqui no hotel, foi para a Pena?...

Um dos homens pareceu adivinhar, exclamou logo, desbarretando-se.

- Sim, senhor, foram para lá há bocado, e aqui está o burrinho também para V. Ex.ª, meu amo!

Mas o outro, mais honesto, negou. Não senhor, a gente que fora para a Pena estava no Nunes...

- A família que o senhor diz foi agora ali para baixo, para o palácio...

- Uma senhora alta?

- Sim senhor.

- Com um sujeito de barba preta?

- Sim senhor.

- E uma cadelinha?

- Sim senhor.

- Tu conheces o Sr. Dâmaso Salcede?

- Não senhor... É o que tira retratos?

- Não, não tira retratos... Tomai lá.

Deu-lhes uma placa de cinco tostões; e voltou ao encontro dos outros, declarando que realmente era tarde para subirem à Pena.

- Agora o que tu deves ver, Cruges, é o palácio. Isso é que tem originalidade e cachet! Não é verdade, Alencar?...

- Eu vos digo, filhos, começou o autor de Elvira, historicamente falando...

- E eu tenho de comprar as queijadas, murmurou Cruges.

- Justamente! exclamou Carlos. Tens ainda as queijadas; é necessário não perder tempo; a caminho! (…)


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[Carlos] correu à Lawrence por um caminho diferente, ávido de uma certeza: - e aí, o criado que lhe apareceu, disse-lhe que o Sr. Salcede e os srs. Castro Gomes tinham partido na véspera para Mafra...

- E de lá?...

O criado ouvira dizer ao Sr. Dâmaso que de lá voltavam a Lisboa.

- Bem, disse Carlos atirando o chapéu para cima da mesa, traga-me você um cálice de conhaque, e uma pouca de água fresca.

Sintra, de repente, pareceu-lhe intoleravelmente deserta e triste. Não teve ânimo de voltar ao palácio, nem quis sair mais dali; e arrancando as luvas, passeando em volta da mesa de jantar, onde murchavam os ramos da véspera, sentia um desejo desesperado de galopar para Lisboa, correr ao Hotel Central, invadir-lhe o quarto, vê-la, saciar os seus olhos nela!... Porque, o que o irritava agora era não poder encontrar, na pequenez de Lisboa, onde toda a gente se acotovela, aquela mulher que ele procurava ansiosamente! Duas semanas farejara o Aterro como um cão perdido: fizera peregrinações ridículas de teatro em teatro: numa manhã de domingo percorrera as missas! E não a tornara a ver. Agora sabia-a em Sintra, voava a Sintra, e não a via também. Ela cruzava-o uma tarde, bela como uma deusa transviada no Aterro, deixava-lhe cair na alma por acaso um dos seus olhares negros, e desaparecia, evaporava-se, como se tivesse realmente remontado ao céu, de ora em diante invisível e sobrenatural: e ele ali ficava, com aquele olhar no coração, perturbando todo o seu ser, orientando surdamente os seus pensamentos, desejos, curiosidades, toda a sua vida interior, para uma adorável desconhecida, de quem ele nada sabia senão que era alta e loira, e que tinha uma cadelinha escocesa... Assim acontece com as estrelas de acaso! Elas não são duma essência diferente, nem contém mais luz que as outras: mas, por isso mesmo que passam fugitivamente e se esvaem, parecem despedir um fulgor mais divino, e o deslumbramento que deixam nos olhos é mais perturbador e mais longo... Ele não a tornara a ver. Outros viam-na. O Taveira vira-a. No Grémio, ouvira um alferes de lanceiros falar dela, perguntar quem era, porque a encontrava todos os dias. O alferes encontrava-a todos os dias. Ele não a via, e não sossegava...


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O criado trouxe o conhaque. Então Carlos, preparando vagarosamente o seu refresco, conversou com ele, falou um momento dos dois rapazes ingleses, depois da espanhola obesa... Enfim, dominando uma timidez, quase corando, fez, através de grandes silêncios, perguntas sobre os Castro Gomes. E cada resposta lhe parecia uma aquisição preciosa. A senhora era muito madrugadora, dizia o criado: às sete horas tinha tomado banho, estava vestida, e saia só. O Sr. Castro Gomes, que dormia num quarto separado, nunca se mexia antes do meio-dia; e, à noite, ficava uma eternidade à mesa, fumando cigarretes e molhando os beiços em copinhos de conhaque e água. Ele e o Sr. Dâmaso jogavam o dominó. A senhora tinha montões de flores no quarto; e tencionavam ficar até domingo, mas fora ela que apressara a partida...

- Ah, disse Carlos depois de um silêncio, foi a senhora que apressou a partida?...

- Sim, senhor, com cuidado na menina que tinha ficado em Lisboa... (…)


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E aquela natureza de Sintra, ao escurecer, dizia ele, começava a entristecê-lo.

Então concordaram em jantar ali, na Lawrence, para evitar o espectáculo torpe do Palma e das damas, mandar vir à porta o break, e partir depois ao nascer do luar. Alencar, aproveitando a carruagem, recolhia também a Lisboa. (…)

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Na Lawrence o jantar prolongou-se até às oito horas, com luzes; - e o Alencar falou sempre. Tinha esquecido nesse dia as desilusões da vida, todos os rancores literários, estava numa veia excelente; e foram histórias dos velhos tempos de Sintra, recordações da sua famosa ida a Paris, coisas picantes de mulheres, bocados da crónica íntima da Regeneração... Tudo isto com estridências de voz, e filhos isto! e rapazes aquilo! e gestos que faziam oscilar as chamas das velas, e grandes copos de Colares emborcados de um trago. Do outro lado da mesa, os dois ingleses, correctos nos seus fraques negros, de cravos brancos na botoeira, pasmavam, com um ar embaraçado a que se misturava desdém, para esta desordenada exuberância de meridional.

A aparição do bacalhau foi um triunfo: - e a satisfação do poeta tão grande, que desejou mesmo, caramba, rapazes, que ali estivesse o Ega!

- Sempre queria que ele provasse este bacalhau! Já que me não aprecia os versos, havia de me apreciar o cozinhado, que isto é um bacalhau de artista em toda a parte!... Noutro dia fi-lo lá em casa dos meus Cohens; e a Rachel, coitadinha, veio para mim e abraçou-me... Isto, filhos, a poesia e a cozinha são irmãs! Vejam vocês Alexandre Dumas... Dirão vocês que o pai Dumas não é um poeta... E então d'Artagnan? D'Artagnan é um poema... É a faísca, é a fantasia, é a inspiração, é o sonho, é o arroubo! Então, poço, já vêem vocês, que é poeta!... Pois vocês hão-de vir um dia destes jantar comigo, e há-de vir o Ega, e hei-de-vos arranjar umas perdizes à espanhola, que vos hão-de nascer castanholas nos dedos!... Eu, palavra, gosto do Ega! Lá essas coisas de realismo e romantismo, histórias... Um lírio é tão natural como um percevejo... Uns preferem fedor de sarjeta; perfeitamente, destape-se o cano publico... Eu prefiro pós de marechala num seio branco; a mim o seio, e, lá vai à vossa. O que se quer, é coração. E o Ega tem-no. E tem faísca, tem rasgo, tem estilo... Pois, assim é que eles se querem, e, lá vai à saúde do Ega!


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Pousou o copo, passou a mão pelos bigodes, e rosnou mais baixo:

- E, se aqueles ingleses continuam a embasbacar para mim, vai-lhes um copo na cara, e é aqui um vendaval, que há-de a Grã-Bretanha ficar sabendo o que é um poeta português!...

Mas não houve vendaval, a Grã-Bretanha ficou sem saber o que é um poeta português, e o jantar terminou num café tranquilo. Eram nove horas, fazia luar, quando Carlos subiu para a almofada do break.

Alencar, embuçado num capote, um verdadeiro capote de padre de aldeia, levava na mão um ramo de rosas: e agora, guardara o seu panamá na maleta, trazia um boné de lontra. O maestro, pesado do jantar, com um começo de spleen, encolheu-se a um canto do break, mudo, enterrado na gola do paletó, com a manta da mamã sobre os joelhos. Partiram. Sintra ficava dormindo ao luar.

Algum tempo o break rodou em silêncio, na beleza da noite. A espaços, a estrada aparecia banhada duma claridade quente que faiscava. Fachadas de casas, caladas e pálidas, surgiam, de entre as árvores com um ar de melancolia romântica. Murmúrios de águas perdiam-se na sombra; e, junto dos muros enramados, o ar estava cheio de aroma. Alencar acendera o cachimbo, e olhava a lua.

Mas, quando passaram as casas de S. Pedro, e entraram na estrada, silenciosa e triste, Cruges mexeu-se, tossiu, olhou também para a lua, e murmurou de entre os seus agasalhos:

- Ó Alencar, recita para aí alguma coisa...

O poeta condescendeu logo - apesar de um dos criados ir ali ao lado deles, dentro do break. Mas, que havia ele de recitar, sob o encanto da noite clara? Todo o verso parece frouxo, escutado diante da lua! Enfim, ia dizer-lhe uma história bem verdadeira e bem triste... Veio sentar-se ao pé do Cruges, dentro do seu grande capotão, esvaziou os restos do cachimbo, e, depois de acariciar algum tempo os bigodes, começou, num tom familiar e simples:

Era o jardim duma vivenda antiga,

Sem arrebiques de arte ou flores de luxo;

Ruas singelas de alfazema e buxo,

Cravos, roseiras...

- Com mil raios! exclamou de repente o Cruges, saltando de dentro da manta, com um berro que emudeceu o poeta, fez voltar Carlos na almofada, assustou o trintanário.

O break parara, todos o olhavam suspensos; e, no vasto silêncio da charneca, sob a paz do luar, Cruges, sucumbido, exclamou:

- Esqueceram-me as queijadas!"

Eça de Queirós, OS MAIAS, capítulo VIII