quarta-feira, 28 de novembro de 2012

A UM POETA


Tu que dormes, espírito sereno,
Posto à sombra dos cedros seculares,
Como um levita à sombra dos altares, 
Longe da luta e do fragor terreno.

Acorda! É tempo! O sol, já alto e pleno
Afugentou as larvas tumulares... 
Para surgir do seio desses mares 
Um mundo novo espera só um aceno...

Escuta! É a grande voz das multidões! 
São teus irmãos, que se erguem! São canções... 
Mas de guerra... e são vozes de rebate!

Ergue-te, pois, soldado do Futuro,
E dos raios de luz do sonho puro, 
Sonhador, faz espada de combate!


Antero de Quental (1842-1891)

terça-feira, 13 de novembro de 2012

Pirata

Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.


Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.


A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

 

Sophia de Mello Breyner Andresen

terça-feira, 6 de novembro de 2012