sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

Da Velhice…

 

 

Mia Couto

 

Da velhice
sempre invejei
o adormecer
no meio da conversa.


Esse descer de pálpebra
não é nem idade nem cansaço.


Fazer da palavra um embalo
é o mais puro e apurado
senso da poesia.


Mia Couto
No livro Idades/ cidades/ divindades

terça-feira, 21 de janeiro de 2014

Este é o Tempo

Tempo

Este é o tempo
Este é o tempo
Da selva mais obscura

Até o ar azul se tornou grades
E a luz do sol se tornou impura

Esta é a noite
Densa de chacais
Pesada de amargura

Este é o tempo em que os homens renunciam.

Sophia de Mello Breyner Andresen, Mar Novo (1958)

Concurso «Ler é uma Festa»

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terça-feira, 7 de janeiro de 2014

Sophia

 

Sou o único homem a bordo do meu barco.

Os outros são monstros que não falam,
Tigres e ursos que amarrei aos remos,
E o meu desprezo reina sobre o mar.


Gosto de uivar no vento com os mastros
E de me abrir na brisa com as velas,
E há momentos que são quase esquecimento
Numa doçura imensa de regresso.


A minha pátria é onde o vento passa,
A minha amada é onde os roseirais dão flor,
O meu desejo é o rastro que ficou das aves,
E nunca acordo deste sonho e nunca durmo.

Sophia de Mello Breyner Andresen