
A questão do tempo
Quando pretendo «fixar» o tempo no seu agora, o que consigo é comemorar um «agora» que já não é ou prevenir um «agora» que ainda não é. (…)
O tempo é um potro selvagem difícil de montar, porque quando queremos percebê-lo deita-nos abaixo e vemo-lo afastar-se fazendo piruetas. Mas não devemos deixar-nos enganar pela redução ao infinitesimal da actualidade vivida (…).
Conscientes do tempo e da dificuldade em pensá-lo, nós, humanos, inventámos muitas maneiras de estabelecer essa passagem que nunca se detém. Isto é, formas diversas de medir o tempo. Mas o que estamos a medir quando medimos o tempo? Como medir algo que não sabemos sequer o que é?
Medir o tempo corresponde mais ou menos a determinar o prazo das mudanças que nos afectam a nós, às nossas actividades e ao mundo que habitamos. Mas como essas mudanças podem ser de inúmeros tipos e como as medidas que lhe aplicamos correspondem a critérios muito diferentes, na realidade é impossível falar de um só «tempo»: teremos que nos resignar a que haja vários «tempos», conforme as mudanças observadas e as normas de medição utilizadas. E também conforme a urgência social de controlar algumas mudanças mais do que todas as outras.
Fernando Savater, As Perguntas da Vida, D. Quixote.
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